Campobelense percorre 135km a pé durante peregrinação pelo Caminho da Fé
Campobelense percorre 135km a pé durante peregrinação pelo Caminho da Fé
Joyce Furtado Pucci tem 50 anos, é Fisioterapeuta Integrativa e entre os dias 21 a 27 de agosto, percorreu a pé o Caminho da Fé, totalizando 135 km. Joyce saiu de Paraisópolis (MG) e seguiu até Aparecida (SP), atravessando comunidades rurais, estradas de terra, montanhas e a Serra da Mantiqueira.
O percurso passou por regiões como Luminosa, Campista e Campos do Jordão, seguindo depois em direção ao Vale do Paraíba, por Pindamonhangaba e Potim, até a chegada à Basílica de Aparecida.
Correio dos Lagos - O que me motivou a fazer o Caminho da Fé?
Joyce Furtado Pucci - Quando completei 50 anos, em novembro do ano passado, decidi me dar um presente diferente. Não queria ganhar algo que pudesse ser guardado em uma gaveta. Queria viver uma experiência que ficasse em mim.
Foi então que o Caminho da Fé começou a ganhar espaço nos meus pensamentos. Esse sonho nasceu depois que conheci o trabalho do Du Santana, fisioterapeuta que, assim como eu, trabalha com o corpo e emoções e através dele conheci ao @caminhar pra dentro- Andreza.
Ao acompanhar suas peregrinações e conhecer um pouco mais sobre o Caminho, algo em mim despertou. Comecei a perceber que talvez aquela caminhada tivesse muito a ver com o momento que eu estava vivendo.
E assim, o presente dos meus 50 anos foi tomando forma.
O Caminho da Fé deixou de ser apenas um sonho e virou uma decisão. E eu descobri que, algumas vezes, o melhor presente que podemos nos dar não é algo que compramos, mas algo que nos permitimos viver.
Correio dos Lagos - Você já tinha experiência com caminhadas e peregrinações antes?
Joyce - Eu gosto muito de caminhar, fazer trilhas e estar em contato com a natureza. Gosto dessas experiências porque elas me tiram da rotina e me conectam com o corpo e com o presente.
A peregrinação, porém, era algo novo para mim. Já organizo a Trilha Mulheres em Movimento, que começou com um pequeno grupo de mulheres do Pilates e do Treinamento Funcional de uma amiga e hoje reúne até 100 mulheres de Campo Belo do Sul e região para celebrar o Dia da Mulher.
Por isso, quando conheci o Caminho da Fé, senti que era uma experiência que tinha tudo a ver comigo.
Correio dos Lagos - O que o Caminho da Fé representava para você antes de começar?
Joyce - Antes de começar, o Caminho da Fé representava para mim um sonho e um desafio. Era algo que eu admirava de longe, principalmente depois de conhecer as experiências do Du Santana e da Andressa (espiritualista e guia do @caminhar pra dentro) e que despertava em mim muita curiosidade.
Eu imaginava que seria uma caminhada física, mas, ao mesmo tempo, sentia que poderia ser muito mais do que isso. Representava uma oportunidade de sair da rotina, silenciar, me escutar e descobrir o que acontece quando a gente simplesmente caminha, um passo de cada vez.
E, aos 50 anos, isso ganhou ainda mais significado: era o momento de me permitir viver uma experiência nova e despertar para aquilo que realmente fazia sentido para mim.
Correio dos Lagos - Como foi sua preparação física e emocional?
Joyce - Minha preparação física foi uma forma de conhecer melhor o meu próprio corpo e descobrir do que ele ainda era capaz. Antes do Caminho, eu já fazia musculação, Pilates e Exercícios de Bioenergéticos, que me ajudam muito a perceber e sentir o corpo.
Também fui fazendo caminhadas e trilhas, mas não queria apenas me preparar para completar o percurso. Queria me experimentar.
E o resultado me surpreendeu. Durante todo o Caminho da Fé, não precisei tomar nenhum medicamento, não tive bolhas nos pés, nem calos. Tive, claro, cansaço e momentos de dificuldade, mas meu corpo respondeu muito bem.
Foi uma descoberta muito bonita: eu achava que estava preparando meu corpo para o Caminho, mas, na verdade, o Caminho estava me mostrando a força e a capacidade que meu corpo já tem.
Correio dos Lagos - Quanto tempo levou entre a decisão e o início da caminhada?
Joyce - Foram cerca de nove meses entre a decisão e o início. Meu aniversário de 50 anos foi em novembro, quando nasceu esse desejo de me dar essa experiência. Em março, comprei o pacote e, finalmente, entre os dias 21 e 27 de agosto, vivi o Caminho da Fé. Foram meses de expectativa e preparação até transformar o sonho em realidade.
Correio dos Lagos - O que você levou na mochila e o que considera indispensável?
Joyce - O desafio começou ainda em casa, na hora de arrumar a mochila. O limite era de apenas 8 kg, e isso me fez pensar muito sobre o que realmente era necessário.
Levei roupas de frio, calor e para a chuva, itens de higiene, primeiros socorros e tudo para o cuidado com os pés, que para mim era indispensável.
Foi o primeiro exercício de desapego: escolher o que realmente precisava estar comigo e deixar para trás aquilo que só ocupava espaço. E percebi que isso vale para a vida também: a gente precisa de muito menos do que imagina.
Correio dos Lagos - Você fez o percurso sozinha ou acompanhada? Como foi essa escolha?
Joyce - Fiz o Caminho acompanhada de uma amiga, a Sabrina, que decidiu viver essa experiência comigo apenas 15 dias antes da peregrinação.
Escolhi como guias a integração de duas guianças @caminharpradentro e o @caminhodaalma, porque minha intenção era fazer o caminho também como uma experiência de condução terapêutica. E foi tudo muito lindo, superou completamente minhas expectativas.
Mas também percebi que é um caminho que pode ser feito sozinho. É muito tranquilo, seguro e, ao mesmo tempo, oferece muitas oportunidades de encontros pelo caminho.
Correio dos Lagos - Houve algum momento em que você pensou em desistir?
Joyce - Não! Em nenhum momento pensei em desistir.
Eu não estava ali para vencer uma prova, mas para viver uma experiência. Fui respeitando meu corpo, meu ritmo e entendendo que cada passo fazia parte do caminho. Desistir nunca foi uma opção; parar, respirar e continuar, sim.
E quando o cansaço batia eu repetia esse mantra: "Cada passo que eu dou, mais perto eu estou".
Correio dos Lagos - Como lidou com o cansaço, as dores e a dificuldade pelo caminho?
Joyce - As maiores dificuldades começaram antes mesmo de eu partir. Ouvi que eu era louca, que não daria conta, que era difícil demais. Mas eu decidi: eu iria, independentemente do que dissessem.
E, quando tomei essa decisão, os caminhos foram se abrindo e pessoas foram aparecendo exatamente onde eu precisava de suporte.
No percurso, tive cansaço e dores no corpo, mas fui respeitando meus limites, fazendo alongamento e mobilidade antes e depois de cada etapa. E, principalmente, vivendo o presente, um passo de cada vez.
No fim, o que parecia difícil foi libertador. Descobri que, quando a gente para de pensar no quanto falta e começa a viver o passo que está dando, o caminho fica mais leve.
Correio dos Lagos - Qual foi a paisagem e o lugar que mais chamou tua atenção?
Joyce - Foi durante a subida da Luminosa, na Serra da Mantiqueira. No meio da imensidão da serra, a gente visualizava de longe um ipê-amarelo solitário, todo florido. Foi uma das imagens que mais me marcou.
Ele me fez pensar que, mesmo quando o caminho é desafiador, sempre existe espaço para florescer. Cada um tem seu tempo, seu ritmo e sua própria beleza.
Aquela árvore, no meio da serra, acabou se tornando uma imagem que levo comigo: cada um tem seu tempo de florescer, e a beleza muitas vezes nasce justamente no meio dos desafios.
Correio dos Lagos - De que maneira a Fé esteve presente durante a caminhada?
Joyce - A fé esteve presente de uma forma muito simples e, ao mesmo tempo, muito profunda. Estava em cada oração, em cada intenção que levei comigo, nos momentos de silêncio e nas pessoas que cruzaram o meu caminho.
Correio dos Lagos - A experiência mudou alguma coisa na sua forma de enxergar a vida?
Joyce - Sim. Muito. Acho que a experiência mudou principalmente a minha forma de olhar para o presente.
No primeiro dia ainda estávamos muito no mental, pensando nos quilômetros, no que viria pela frente, nas expectativas... Mas, a partir do segundo dia, fomos simplesmente vivendo o caminho. Estávamos mais desconectados do celular e de toda a correria do mundo lá fora.
E percebi como desacelerar, mesmo que por alguns dias, faz a gente voltar para o simples, para o essencial e para aquilo que realmente importa. Voltei com essa vontade de viver mais o presente e valorizar as coisas simples do dia a dia.
Correio dos Lagos - Você aproveitou o percurso para fazer pedidos, agradecer e refletir sobre a vida?
Joyce - Sim. Esse foi, para mim, um dos sentidos mais especiais da caminhada. Levei comigo uma passagem que sempre me toca: “Pedi, e vos será dado; buscai, e achareis; batei, e vos será aberto.” — Mateus 7:7.
Mas, dessa vez, eu não levei apenas os meus pedidos. Coloquei na mochila as intenções de pacientes, amigos e familiares que confiaram seus pedidos a mim. E elas foram comigo durante todo o caminho.
A cada passo, eu lembrava dessas pessoas. Pedi, agradeci, refleti e, principalmente, entreguei. Foi muito especial sentir que, além da minha própria caminhada, eu estava levando comigo um pouquinho da história e da fé de tantas pessoas.
Correio dos Lagos - O que você sentiu ao chegar no destino final?
Joyce - Foi uma sensação muito grande de realização. Quando avistei Aparecida, passou um filme por dentro de mim. Lembrei de cada subida, do cansaço, das conversas, dos silêncios, das pessoas que encontrei e de tudo o que levei comigo naquela mochila.
Mas, acima de tudo, senti gratidão. Percebi que chegar ao destino era importante, mas que a verdadeira transformação tinha acontecido durante o caminho. Eu não cheguei a Aparecida da mesma forma que saí de Paraisópolis. Cheguei mais leve, mais presente e com a certeza de que algumas caminhadas mudam a gente para sempre.
Correio dos Lagos - Você pretende fazer o Caminho da Fé novamente? Por quê?
Joyce - Sim, com certeza. Sinto que o Caminho ainda tem muito a me ensinar.
Acho que voltaria não para repetir a experiência, mas para vivê-la de uma maneira diferente. Porque o caminho me fez tão bem e me trouxe para um lugar tão simples dentro de mim, que sinto vontade de voltar e sentir tudo isso novamente.
Correio dos Lagos - Que conselho você daria pra quem está pensando em fazer o Caminho da Fé?
Joyce - Eu diria: vá. Mas vá de coração aberto e sem querer controlar tudo.
Prepare o corpo, escolha bem o que levar na mochila e respeite os seus limites. Mas, principalmente, permita-se viver o caminho. Não tenha pressa de chegar. Observe, converse, silencie, agradeça e esteja aberto ao que cada dia pode trazer.
Correio dos Lagos - Se tivesse que definir essa experiência em uma palavra , qual seria?
Joyce - Encontro.
Porque foi isso que senti. Encontrei minha fé de um jeito diferente, encontrei pessoas que deixaram marcas em mim e tive momentos de silêncio que me fizeram olhar mais para dentro. Mas, acima de tudo, acho que encontrei uma parte de mim que estava precisando desacelerar, respirar e simplesmente estar mais presente.
Correio dos Lagos - Quando você olha pra trás e lembra de todo o percurso, o que o Caminho da Fé significou de verdade pra você?
Joyce - Quando penso em tudo o que vivi, sinto que o Caminho da Fé foi um reencontro comigo mesma.
Ao sair de Paraisópolis, a primeira plaquinha que li dizia: “Envelheça contando histórias e não sonhos.” Aquela frase me atravessou. Durante os dias de caminhada, percebi como o corpo, quando se movimenta, também nos leva para dentro. A cada passo, fui desacelerando, silenciando, rezando e ouvindo mais o que eu sentia.
E isso conversou muito com o meu trabalho: caminhar não movimenta apenas o corpo, movimenta também pensamentos, emoções e a nossa forma de enxergar a vida.
O Caminho me lembrou que a vida está acontecendo agora. E eu quero vivê-la, realizar meus sonhos e ter muitas histórias para contar.
E, para finalizar, acho que é isso que levo comigo: a coragem de não deixar a vida para depois. O Caminho me fez valorizar ainda mais o movimento, a natureza, os encontros e as coisas simples. E esse olhar, com certeza, vai comigo para a vida e também para o meu trabalho.
Hoje, quando lembro de tudo o que vivi, sinto uma gratidão enorme por ter me permitido estar ali, viver cada passo e simplesmente deixar o caminho acontecer.
Ainda bem que eu fui.
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