“Ser mãe é plantar sementes de amor”: conheça a história de superação, acolhimento e dedicação de Rosana Pereira Mendes
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- Rosana juntamente com o esposo e suas filhas
O mês de maio remete a uma data importante: o Dia das Mães. Para celebrar, o Jornal Correio dos Lagos conversou com uma mãe que desempenha mil e uma funções.
Rosana Pereira Mendes, de 41 anos, é casada com Andre Angelo Sartori e mãe de Rafaela Mendes Sartori, de 15 anos, Isabela Mendes Sartori, de 11 anos, e Maiane Mendes Sartori, de 10 anos. Natural de Anita Garibaldi, atualmente reside no município de Cerro Negro.
Rosana é mãe, empresária, professora, já foi vereadora no município de Cerro Negro e também colaborou em movimentos sociais. Atualmente, divide sua rotina entre os cuidados com as filhas, a casa, o empreendimento e a atuação na educação do município de Anita Garibaldi.
Correio dos Lagos – Rosana, conte um pouco sobre sua trajetória, formação e atuação como professora.
Rosana – Antes de falar sobre minha formação, é importante dizer que sou filha da roça. Cresci ajudando meus pais na lavoura, plantando arroz, batata, melancia, feijão... e, claro, tendo minha mãe como primeira professora. Passei por outras professoras nos anos iniciais e, no 5º ano, fui para o colégio da cidade, onde concluí com êxito o Ensino Médio aos 16 anos.
Nesse período, nossa região passava por um processo de mudança com a construção da UHE Barra Grande. Surgiu então um movimento social que começou a organizar o povo para lutar pelos seus direitos e, como minha família seria atingida pela barragem, passamos a participar. Durante os cursos de formação, eu acompanhava meu pai para ajudá-lo a anotar as informações. Foi então que os coordenadores me escolheram para fazer um teste e concorrer a uma vaga no curso de Pedagogia ofertado pela UERGS em convênio com os movimentos sociais.
E acreditem: depois de convencerem meu pai a me deixar ir, deu certo. Consegui a vaga e lá fui eu, com 16 anos, sozinha, cursar Pedagogia.
Foram quatro anos significativos, construídos na articulação entre o estudo teórico e a prática. Nesse período, desenvolvemos não apenas conhecimentos acadêmicos, mas também uma consciência crítica, aprendendo a compreender as contradições do mundo, a nos posicionar diante das injustiças e a atuar em prol de uma sociedade mais justa.
Formei-me em 2004 no curso denominado Pedagogia da Terra, concebido a partir da valorização das nossas origens e raízes. Na época, já atuava no Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), onde permaneci por um período significativo, contribuindo na luta pelos direitos das populações atingidas. É importante registrar que, fruto dessa luta, muitos direitos foram garantidos, como reassentamentos — caso do 15 de Fevereiro, em Anita Garibaldi —, créditos a fundo perdido, cartas de crédito e casas.
Depois desse período bastante agitado na região, tive a oportunidade de atuar por um tempo em Goiânia e Brasília, participando de negociações em âmbito nacional. Durante esse período, conheci diversos estados do Brasil, bem como outros países, experiências que considero fundamentais para minha formação profissional e para a construção da pessoa que sou hoje.
Na minha trajetória como professora, passei por diversas turmas, desde a Educação Infantil até o Ensino Fundamental, além de atuar como segunda professora no Ensino Médio. Também atuei na coordenação da Escola Maria Eleci, no Marmeleiro, em 2017, onde desenvolvemos um trabalho maravilhoso e vários projetos. Trabalhei ainda na coordenação pedagógica da Educação Infantil no município de Campo Belo do Sul, onde aprendi muito. Já fui vereadora em Cerro Negro — uma experiência um pouco frustrante. Atualmente, sou efetiva na Secretaria de Educação de Anita Garibaldi, no cargo de administradora escolar.
Correio dos Lagos – Trabalhar com educação, principalmente em sala de aula, muitas vezes exige fazer o papel de mãe. Você se sente realizada em sua profissão?
Rosana – Minha atuação em sala de aula sempre foi muito tranquila. Claro que surgem dificuldades, mas nada que não possamos enfrentar. Desde sempre considero nossas crianças e estudantes o centro de todo o nosso trabalho. Assim como uma mãe coloca o filho em primeiro lugar em tudo o que faz, sempre fiz isso com meus alunos. Sinto-me plenamente realizada em minha profissão e em minha trajetória de vida, pois procuro dedicar o máximo de mim em tudo o que faço.
Correio dos Lagos – Com sua vivência na educação, você acredita que a escola está preparada para acolher crianças com necessidades diferentes?
Rosana – Essa questão é um pouco difícil de responder quando temos, no meu caso, uma filha com “necessidades diferentes”, embora hoje o termo correto seja criança com deficiência. De modo geral, as escolas ainda estão em processo de preparação para acolher plenamente essas crianças. Embora haja avanços importantes nas políticas de inclusão, nem todas as instituições dispõem de estrutura física adequada, recursos pedagógicos acessíveis e profissionais devidamente capacitados para atender às diversas especificidades dos estudantes.
Além disso, a inclusão não se limita apenas ao acesso à escola, mas envolve a garantia de permanência, participação e aprendizagem significativa. Isso exige formação continuada dos educadores, adaptação de práticas pedagógicas e, sobretudo, uma mudança de postura pautada no respeito às diferenças e na valorização de cada sujeito. Ainda que existam experiências positivas, é necessário avançar na construção de uma escola verdadeiramente inclusiva, preparada não apenas para receber, mas para acolher e promover o desenvolvimento de todos os estudantes em sua diversidade.
Correio dos Lagos – Você tem três filhas, sendo uma adotiva. Como foi a decisão de adotar? Que idade ela tinha quando vocês a adotaram?
Rosana – Antes de ter minha filha mais velha, que hoje tem 15 anos, tive dois abortos ao chegar aos três meses de gestação. O sofrimento emocional é muito grande e, na época, fiz uma promessa: se tivesse um filho ou filha biológica, adotaria uma criança. Então tive a Rafaela e, quatro anos depois, a Isabela. E a promessa continuava, afinal, não podemos apagar uma palavra depois de dita.
Logo após o nascimento da Isabela, entramos com a documentação no fórum e seguimos os protocolos para adoção. Um deles é definir o perfil da criança que se pretende adotar, então escolhemos um menino de até quatro anos de idade para constar em nossa ficha de intenção.
Em 2019, em pleno período da pandemia, fomos chamados ao fórum e nos apresentaram uma menina. Não era o perfil escolhido, mas nos explicaram que precisavam, com urgência, encaminhar as crianças do abrigo para famílias, devido à situação da pandemia. Nunca tínhamos visto a criança. Naquele dia, a assistente social nos enviou algumas fotos e pediu que pensássemos no caso até as 10 horas da manhã seguinte. Já eram 19 horas.
Foi um choque, um momento de ansiedade e indecisão, afinal queríamos um menino. O tempo para pensar era curto para uma decisão tão grande. Conversamos muito, falamos com nossas filhas e alguns familiares e chegamos à conclusão de que iríamos buscá-la no dia seguinte. Naquela noite, eu nem dormi. Afinal, uma gestação de nove meses e mais quase quatro anos de espera resumidos em uma noite não é fácil, né?
No outro dia fomos ao fórum e, pela primeira vez, tivemos contato com nossa filha. Ela já era nossa, nós é que ainda não sabíamos. Quando me viu, correu para meu colo e não saiu mais. Gastaria muitas páginas para descrever esse momento… foi único, verdadeiro e cheio de significado. Quando chegamos em casa, foi o encontro das irmãs para toda a vida.
Correio dos Lagos – Sua filha adotiva tem autismo. Se puder falar um pouco sobre como é a convivência. Quando adotaram, vocês já sabiam do diagnóstico?
Rosana – Quando adotamos, sabíamos que ela tinha um déficit de atenção devido à falta de estímulos. Porém, com o passar do tempo, fomos percebendo muitas dificuldades relacionadas à aprendizagem e ao comportamento. Com acompanhamento de neurologistas, psicólogos e especialistas da área, chegamos ao diagnóstico.
Maiane tem autismo, deficiência intelectual, TDAH e um comprometimento muito grande na parte cognitiva. Agora, no 4º ano escolar, depois de muito esforço de muitas pessoas, começou a ler pequenas palavras.
Correio dos Lagos – Quais foram os maiores desafios no início dessa caminhada?
Rosana – O maior desafio é ter coragem. A adoção pode ser um caminho muito bonito, mas não dá para romantizar. Ela vem acompanhada de desafios reais, tanto emocionais quanto práticos. No caso da nossa filha, ela sofreu muito: negligência, abandono e outras experiências difíceis que prefiro não comentar. Por isso, trouxe muitos traumas, dificuldades de vínculo e comportamentos desafiadores, exigindo de todos nós muita paciência.
Correio dos Lagos – O que você gostaria que a sociedade entendesse melhor sobre a maternidade atípica?
Rosana – A maternidade atípica não é apenas sobre ter um filho, mas sobre ter clareza de que enfrentaremos muitos desafios. O amor, sozinho, não dá conta de tudo. É preciso apoio e esforço de toda a família, porque a rotina é muito complexa, com consultas médicas frequentes, terapias, adaptações na escola e medicações.
As críticas ao comportamento da criança ou à forma de educar são comuns, especialmente quando a condição não é tão visível, como no caso da nossa filha. Às vezes, até os próprios profissionais não sabem como lidar com determinadas situações. No meu caso, não me sinto tão sobrecarregada porque minha família compartilha comigo os cuidados dela. A sociedade precisa entender que, mesmo dentro do mesmo diagnóstico, nenhuma criança é igual à outra.
Correio dos Lagos – Qual foi o momento mais marcante da sua jornada como mãe?
Rosana – Foram muitos momentos marcantes, mas um em especial foi quando tive minha primeira filha com 34 semanas e ela apresentou um problema cardíaco. Graças à Nossa Senhora Aparecida, tudo se resolveu.
Talvez não como mãe, mas o momento mais marcante e mais triste da minha vida foi a perda da minha mãe. Não superei até hoje. Mães não deveriam morrer.
Correio dos Lagos – Como é um dia típico na sua vida?
Rosana – Um dia muito agitado, cheio de correria, atividades, trabalho e cuidados. Sou uma pessoa que não consegue ficar parada. Parece que, quando estou em ação, tudo faz mais sentido.
Ao longo do dia, estou sempre ocupada com trabalho, responsabilidades e cuidados. Resolvo uma coisa e já passo para outra. Quando percebo, o tempo voou. Gosto de me sentir produtiva, de saber que estou dando conta e sendo útil. As pessoas ao meu redor sabem que podem contar comigo, porque dificilmente deixo algo pela metade. Ficar sem fazer nada me incomoda, como se estivesse perdendo tempo. Meu ritmo é intenso. Minhas filhas dizem que sou hiperativa (risos). Mas, certa ou errada, esse sempre foi meu jeito de viver. Desde criança fui assim. Com sete anos de idade já fazia pão e cuidava das galinhas.
Correio dos Lagos – E a Rosana empreendedora? Como surgiu o Belo Cerro?
Rosana – O Camping e Pousada Belo Cerro foi surgindo sem muito planejamento, mas com muito trabalho. É um espaço simples, que acolhe todos os públicos sem distinção. Sempre estive junto da minha família em todas as atividades que desenvolvemos. Faço de tudo, desde emitir nota fiscal até limpar banheiros. Não vejo serviço difícil quando estou bem. Claro que gosto muito de cozinhar, cuidar e manter o espaço bonito e organizado.
Quero aproveitar para convidar o povo da região dos Lagos para nos visitar. Temos área de camping com churrasqueiras, pedalinhos, hospedagem em cabanas, espaço para eventos, campo de futebol e piscina aquecida.
Correio dos Lagos – Que mensagem você deixaria para outras mães, especialmente as que vivem uma realidade semelhante à sua?
Rosana – Como nos disse Shakira: mesmo diante de todos os nossos esforços e das quedas, ninguém se salva. Porém, muitas vezes, quando caímos, nos levantamos mais sábias, fortes e resilientes.
Criar nossos filhos com amor, mesmo diante das limitações, já é algo imenso. É um ato de coragem diária, de quem acorda cansada, mas ainda assim escolhe cuidar, ensinar e amar. Não se compare com outras realidades. Cada história carrega seus próprios desafios e também sua própria beleza. Aquilo que você oferece, muitas vezes simples, é exatamente o que seu filho precisa: presença, afeto e verdade.
Acredito que viemos a este mundo não apenas de passagem, mas para deixar marcas nos gestos, nas palavras e nas escolhas que fazemos todos os dias. Ser mãe é plantar sementes de amor, valores e esperança que vão florescer muito além do que podemos ver.
Ter filhos é, sem dúvida, uma das experiências mais transformadoras que existem. É aprender sobre amor incondicional, paciência e recomeços.
E adotar um filho é um gesto de grandeza que vai muito além do sangue. É escolher amar de forma consciente, abrir o coração e a vida para acolher uma história que já começou, mas que ainda pode ser transformada pelo amor. É construir um laço que não nasce da genética, mas da entrega diária, da paciência, da empatia e da decisão profunda de caminhar junto, sem obrigação alguma além do amor.
Adotar é mudar destinos. Não apenas o destino da criança, que encontra um lar, um abraço seguro, um nome dito com carinho, uma rotina de cuidado e pertencimento, mas também o destino de quem acolhe, que descobre um amor novo, muitas vezes maior do que imaginava ser capaz de sentir.
Pense nisso com o coração aberto. Há muitas crianças esperando por uma casa, um lar de verdade cheio de afeto, de regras que protegem, de limites que ensinam, de um prato de comida quente e de uma cama onde possam dormir em paz, sem medo do amanhã.
PENSE NISSO: ADOTE UMA CRIANÇA.
Quero agradecer ao Jornal Correio dos Lagos, em especial à Kely, por me escolher entre tantas mulheres gloriosas, lutadoras e especiais para esta reportagem. Sinto-me imensamente orgulhosa e feliz. Isso significa muito para mim. É uma força a mais para nunca desistir e continuar seguindo em frente com coragem e determinação.
Quero dizer também que este mundo precisa de nós conscientes de quem somos, de onde viemos e do lugar que ocupamos na sociedade. Precisa das nossas experiências e das nossas verdades vividas, não como algo absoluto, mas como contribuição para enxergar a realidade com mais clareza. Mais do que discurso, o que transforma é o exemplo no cotidiano: a coerência entre o que se diz e o que se faz. Não esquecer as origens não é ficar preso ao passado, mas manter os pés no chão enquanto seguimos em frente.
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